Inaugurado Centro para o Conhecimento Animal

Inaugurado Centro para o Conhecimento Animal
2015-10-01

Numa altura em que a comunidade veterinária, e a própria sociedade, estão cada vez mais despertas para a importância das temáticas relacionadas com o comportamento animal, surge em Algés um espaço multidisciplinar para lidar com as várias vertentes do comportamento em animais de companhia, animais de produção, animais exóticos e selvagens e até o próprio animal humano. Gonçalo da Graça Pereira e Sara Fragoso fizeram-nos uma visita guiada.

Um centro dividido em três pisos, com várias salas onde vão funcionar consultórios, espaços de treino e de formação. Foi aqui que encontrámos Gonçalo da Graça Pereira e Sara Fragoso, os mentores do primeiro centro português de bem-estar e psicologia animal inaugurado no passado dia 15 de julho em Algés. “O Centro para o Conhecimento Animal (CPCA) nasceu de um sonho meu e da bióloga Sara Fragoso, e que conseguimos finalmente realizar. Trabalhamos em várias áreas e com uma equipa multidisciplinar”, começa por explicar Gonçalo da Graça Pereira, médico veterinário Especialista Europeu em Medicina do Comportamento e Presidente da PsiAnimal, que aproveita para enumerar as várias áreas de atuação do CPCA: “animais de companhia, animais de produção, os novos animais de companhia e os animais de cativeiro, sem esquecer o próprio animal humano”.

Segundo Sara Fragoso, para o arranque do projeto foi determinante “o objetivo comum de contribuir para uma relação bem sucedida entre humanos e outros animais, conscientes de uma sociedade cada vez mais exigente em matérias relacionadas com o comportamento e bem-estar animal. Resolvemos desta forma ajudar a dar resposta a muitas questões que cada vez mais se levantam”.
Em cada uma das áreas de atuação existem diferentes ramos. “Nos animais de estimação vamos ter consultas de comportamento animal, consultas para resolução de problemas com uma equipa multidisciplinar e formação para tutores, já que muitos dos problemas comportamentais poderiam ser prevenidos se 98% dos tutores tivessem conhecimento das necessidades fundamentais a nível de comportamento dos seus animais de estimação. Queremos apostar tanto na formação de tutores, como de treinadores e médicos veterinários”, refere Gonçalo da Graça Pereira que levanta um pouco a ponta do véu das ações previstas num futuro próximo: “para Setembro temos previstas pós-graduações para veterinários e não veterinários, como treinadores, tutores e até para grávidas que estejam ansiosas com a chegada do bebé no seio de uma família onde já exista um cão ou um gato”.

Bem-estar nos animais de produção
Os animais de produção não foram esquecidos no CPCA e existe uma equipa de diferentes profissionais, não só veterinários, mas outros profissionais ligados ao bem-estar animal, preparados para dar apoio nesta área. ”Vamos fazer vários tipos de consultoria com avaliações do bem-estar e identificação dos erros cometidos nas explorações.
Também está previsto uma consultoria por avença, em que durante um ano fazemos acompanhamentos mensais de determinada exploração para dar apoio na área do bem-estar animal”, indica Gonçalo da Graça Pereira para quem a investigação nesta área é fundamental “para mostrar aos produtores não só os resultados de se apostar no bem-estar animal, como mostrar como podemos ajudar na própria produção. Por exemplo: sabemos que durante o transporte, se este não for realizado de forma adequada as perdas vão ser significativas. Podemos dar formação sobre esta área”.

E os novos animais de companhia?

O terceiro pilar do Centro de Acolhimento Animal está centrado nos novos animais de estimação, sejam eles répteis, roedores ou aves, uma vez que têm necessidades diferentes que muitas vezes não são percebidas pelos próprios proprietários. “A maioria dos tutores, ou até quem faz a venda destes animais, não tem conhecimento das necessidades destas espécies e o nosso objetivo é dar informação sobre estes animais. Muitas vezes, antes dos tutores irem ao veterinário vão procurar ajuda junto de quem vendeu o animal e é necessário formação nesta área”, refere o especialista em Comportamento. O mesmo se passa com os tratadores de animais em parques zoológicos e em cativeiro, que podem beneficiar de treino para o maneio veterinário, como por exemplo um parque aquático com golfinhos especialmente treinados. “É extremamente importante e cada vez mais vemos o treino como uma forma de enriquecimento ambiental”.

Além da consulta de comportamento para tutores destes animais, Sara Fragoso realça os cursos nesta área que vão fazer parte da oferta formativa do CPCA. “Estes cursos serão dirigidos a diferentes públicos-alvo, de forma a abranger todos aqueles que influenciam, direta ou indireta, a vida destes animais: tutores e profissionais (biólogos, médicos veterinários, tratadores de animais selvagens, entre outros)”. O slogan do Centro de Acolhimento Animal espelha bem a filosofia do projeto: melhorar o bem-estar de todos os animais. E aqui também está incluído o “animal humano. Temos uma equipa multidisciplinar com antropólogos, biólogos, médicos veterinários, professores do ensino especial, psicólogos, psicopedagogos, psicomotricistas, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas e treinadores habilitados para trabalhar em dupla em terapias assistidas com cães, que já se encontram treinados para trabalhar com crianças com dislexia, autismo ou paralisia cerebral”. O Centro está ainda preparado para dar apoio no luto pela perda do animal de companhia, uma área que ainda encontra muita resistência na sociedade. ”Muitos tutores sofrem de depressão no seguimento da perda do animal, que cada vez mais faz parte da família. Quando perdemos um animal é quase como perder um ente querido e a sociedade ainda não está preparada para aceitar esse luto, as pessoas sofrem caladas. Temos uma psicóloga para dar apoio a estas situações”.

Mas será que a sociedade está preparada para um projeto deste nível? “Quando cheguei ao país era visto como o lunático excêntrico do comportamento, mas a poucoe- pouco as pessoas foram percebendo que a saúde mental é importante para o animal.
Cada vez mais foi-se aceitando que o animal podia ter problemas de comportamento, que a saúde mental é importante para o animal e cada vez mais os veterinários foram aceitando esta visão e queremos que sejam os nossos grandes aliados. São eles que vão identificar os problemas de comportamento dos animais, ou acompanhar o luto dos seus clientes, e que nos podem reencaminhar os casos”. Já Sara Fragoso espera que “as clínicas veterinárias nos vejam como aliados para promover o bem-estar e prevenir problemas de comportamento, através dos serviços disponibilizados pelo Centro e de projetos que podemos desenvolver com objetivos específicos para determinada situação. O mesmo acontece relativamente à resolução de problemas de comportamento. As clínicas podem referenciar os casos para o CPCA onde temos uma equipa de trabalho organizada para este fim. Fazemos a avaliação do problema e desenvolvemos de um plano de modificação comportamental para que seja resolvido.

O nosso papel complementa a intervenção do médico veterinário assistente, que poderá acompanhar a evolução do caso e ser convidado a colaborar sempre que necessário”. Gonçalo da Graça Pereira garante que o CPCA tem “uma equipa credível, com formadores nacionais e internacionais, com conhecimento em cada uma das áreas, que nos vai ajudar a criar confiança nas pessoas.
 
O conhecimento não pode ser algo estanque, quanto mais sabemos mais queremos saber e esta busca de conhecimento tem de ser
permanente. Não é por acaso que nos chamamos Centro para o Conhecimento Animal”.
 
Treino para gatos é possível?
Perguntámos a Sara Fragoso, que se tem dedicado à prevenção de problemas de comportamento e treino/modificação comportamental de gatos se é possível treinar felinos. Eis as respostas.

“Estas são duas áreas que acarinho especialmente: a prevenção de problemas de comportamento e bem-estar e o treino/modificação comportamental de gatos.
A primeira pelas vantagens que o investimento numa boa profilaxia tem, uma vez que “ataca” o problema mesmo antes de existir. Prevenir é mesmo o melhor remédio também no que diz respeito ao desenvolvimento de problemas de comportamento. Grande parte destes problemas não existiriam se fosse feita uma boa prevenção. Cursos para tutores e profissionais, aulas para cachorros e consultas de profilaxia são a oferta que temos disponível e poderá fazer a diferença para muitas famílias”.

Em relação ao treino de gatos “ainda é frequente o espanto quando falamos dessa possibilidade, mas é igualmente frequente o reconhecimento de que os gatos são inteligentes e conseguem aprender. Se têm essas competências cognitivas então são treináveis, precisamos apenas de identificar o que os motiva e saber interpretar os seus comportamentos para os levar a fazer alguma coisa”. Mas para quê treinar um gato? “Treinar um gato é muito mais do que conseguir que faça alguns truques, o treino é uma excelente forma de estimulação física e mental para gatos que vivem num ambiente pobre e pouco estimulante como são muitos dos lares que os acolhem, o que pode resultar em problemas de comportamento, como agressividade e comportamentos compulsivos. O treino facilita a criação de uma ligação entre o humano e o gato, uma vez que exige que passem tempo de qualidade juntos e promove a comunicação entre ambas as espécies. O treino de gatos, tal como de outra espécie, tem um enorme potencial como ferramenta de prevenção e simultaneamente de resolução de problemas de comportamento”.

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